Capacitações em hard e soft skills não bastam hoje
- Renê Ruggeri

- 14 de abr.
- 3 min de leitura
A maioria das capacitações ensina as pessoas a fazer melhor. Mas e se, hoje, o problema não for só esse?
Há capacitações que instrumentalizam a pessoa ou profissional para a execução de tarefas ou para o desenvolvimento de habilidades específicas. Dentre estas, incluem-se tanto aquelas voltadas às chamadas hardskills quanto às softskills. Todas são relevantes e necessárias para a progressão do indivíduo em suas relações com o mundo e com os outros, especialmente no que se refere à ampliação de sua capacidade de ação.
Entretanto, há uma categoria distinta de capacitações que atua em um nível diferente: não apenas no que o indivíduo faz, mas em como ele compreende a si mesmo, interpreta suas experiências e se posiciona diante do mundo. Trata-se de capacitações focadas em como o indivíduo é. Abordam o autodesenvolvimento, a autoconsciência e a revisão de fundamentos pessoais na construção de sua visão de mundo.
Podemos denominar as primeiras como capacitações instrumentalizadoras e as segundas como capacitações transformadoras. As capacitações instrumentalizadoras fornecem recursos técnicos, comportamentais ou relacionais que ampliam o repertório do indivíduo para interagir com o mundo. Já as transformadoras promovem mudanças nos referenciais internos do próprio indivíduo, influenciando a forma como ele percebe, interpreta e atribui significado às suas experiências.
É importante reconhecer que toda capacitação produz algum tipo de transformação. O que diferencia essas categorias não é a presença ou ausência de mudança, mas a natureza, profundidade e nível de impacto dessa transformação. Enquanto as capacitações instrumentalizadoras tendem a promover ajustes no repertório de ação do indivíduo, as transformadoras atuam sobre seus modelos mentais e, eventualmente, aspectos mais profundos de sua própria identidade.
Essa distinção pode ser compreendida a partir dos níveis de aprendizagem envolvidos. Capacitações instrumentalizadoras operam predominantemente no nível do desenvolvimento de competências e na melhoria de desempenho em contextos conhecidos. Já as transformadoras envolvem processos como reflexão crítica, questionamento de pressupostos e ampliação da autoconsciência, podendo levar a mudanças na forma como o indivíduo estrutura sua compreensão da realidade.
O impacto de uma capacitação depende também das características do indivíduo. Assim, ainda que grupos possam ser relativamente homogêneos em certos aspectos, a significação e os efeitos de uma mesma capacitação tendem a variar entre os participantes, embora possam surgir tendências de percepção e aproveitamento semelhantes.
No que se refere aos efeitos práticos, as capacitações instrumentalizadoras tendem a impactar principalmente a eficiência da ação, ou seja, a capacidade de realizar tarefas com menor esforço. Já as capacitações transformadoras têm potencial para influenciar a efetividade do indivíduo, ao ampliar sua capacidade de interpretar contextos e escolher objetivos e cursos de ação mais coerentes com uma compreensão mais ampla da realidade. A primeira tende a focar em fazer melhor o mesmo, já a segunda, em fazer o melhor (melhor para si e para o mundo).
Em termos mais amplos, nas capacitações instrumentalizadoras o indivíduo atua sobre um mundo que ele já reconhece, utilizando recursos que adquiriu para melhorar sua performance. Nas capacitações transformadoras, por outro lado, o modo de compreender o mundo pode se alterar. O indivíduo passa a perceber novas possibilidades interpretativas e agir de forma diferente.
Transformações mais profundas podem gerar períodos de incerteza ou desconstrução. No entanto, ao longo do tempo, tendem a ampliar a capacidade adaptativa do indivíduo, permitindo que ele lide de forma mais consciente e integrada com contextos complexos e em constante mudança.
Assim, em um mundo caracterizado por transformações rápidas e crescentes níveis de complexidade, o desenvolvimento humano não pode se restringir à aquisição de novas ferramentas ou habilidades. É preciso oferecer experiências que promovam a transformação do indivíduo em um mundo também em transformação (radical em alguns aspectos).
Nem sempre o objetivo é fazer melhor; às vezes, é fazer diferente. Mais do que isso, frente às transformações do mundo, em muitos casos é necessário ser diferente. Ser produtivo pode envolver capacitações em hardskills e softskills, mas, para além delas, um mundo melhor é aquele em que desenvolvemos, de forma mais plena, a capacidade de sermos humanos.




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