Será possível conhecer o outro sem conhecer a si?

Atualizado: 20 de jan.


É claro que todos nós já ouvimos alguém falar que fulano é assim ou assado. Aliás, provavelmente, muitos de nós já emitimos esse tipo de opinião sobre alguém. Mas normalmente, conhecemos do outro apenas aquilo que vemos dele. E perceba que o que vemos decorre de uma percepção subjetiva do que é mostrado, sempre há o risco (quase certo na realidade) do equívoco.


Uma pesquisa rápida poderá lhe mostrar que o que vemos dos outros são suas reações a interações diversas. É o que chamamos de comportamento, grosso modo, aquilo que a pessoa faz. Mas, se comportamentos são reações ou interações e é o que vemos das pessoas, não podemos dizer que elas sejam exatamente isso. A essência do que seja uma pessoa é algo mais intrínseco e difícil de ver.


Pense em si próprio. Certamente você tem características que não ficam à mostra para qualquer um em qualquer lugar. Por exemplo, é comum termos certos costumes em casa que não adotamos quando estamos em outro ambiente. São as máscaras que usamos em cada papel social que desempenhamos. E todos têm as suas. Isso está associado ao conceito de persona na psicologia Junguiana.


Você ficaria surpreso em descobrir que há características suas que nem mesmo você tem consciência delas, mas que influenciam seu comportamento bastante. É o que chamamos de sombra. Mas a sombra fica pra outro texto.


Não há nada de errado nestas máscaras sociais, são apenas modelos que usamos, conscientemente ou não, para definir nossos comportamentos. Mas, entenda que há certas coisas que permanecem em todos os papéis de desempenhamos.


Repare em você mesmo. Esforçando-se nessa difícil auto apreciação (não é fácil ser objeto de análise de si próprio) é bem possível que você comece a perceber o que há em você de tão essencial cujos reflexos nenhum papel social consegue eliminar do seu comportamento. São princípios, valores e traços que de tão essenciais não podem ser eliminados sob pena de afetar a própria personalidade. É como se não fosse mais você. E isso é o que você é na essência. Nos bastidores dos comportamentos, regulando-os, estes traços dirigem o teatro da sua vida.



Assim como ocorre com você, também ocorre com seu vizinho, seu chefe, seu cônjuge, seu amigo de academia e qualquer outra pessoa.


Os traços mais essências da sua personalidade afetam sua forma de ver o mundo. Não fosse assim, não aconteceriam impasses entre duas pessoas, pois sempre seria possível conciliar dois ou mais conjuntos de traços essenciais (princípios, valores etc.). Sabemos que não é assim que funciona o mundo dos homens. As divergências existem e são duras às vezes.


Há quem goste mais do silêncio e quem goste mais do barulho, mesmo que todos gostem eventualmente de um e do outro. Falamos aqui de preferências que construímos desde cedo à medida que nos desenvolvemos.


Pense novamente em você. O que te relaxa? O silêncio ou uma conversa? Acho até estranho alguém relaxar conversando, para mim o silêncio é imbatível nessa missão. Mas sei que há pessoas que ficam nervosas com o silêncio, inquietas. Veja só, são diferentes de mim! Você talvez seja uma delas! Você consegue ficar quantos dias sem sequer ver outra pessoa? Alguns talvez achem impossível pensar em dias, no máximo algumas horas.


Uso de exemplo características de introversão e extroversão, mas poderíamos citar outras situações. Há inúmeras delas. Você prefere uma tabela ou um gráfico? Um texto ou um áudio? Uma cachoeira ou um museu? O campo ou a cidade? E assim, indefinidamente, podemos pensar em situações que dividem as pessoas em grupos. Mas quantos grupos poderiam existir?


Apenas com as alternativas acima já seria difícil encontrar duas pessoas que dessem respostas iguais a todas elas. Imagine se juntarmos todas as alternativas que o mundo nos coloca em nossos papéis sociais? Não é difícil inferir que a chance de conciliação completa é quase impossível. No mínimo, é muito improvável.


Agora, em vez de olhar para si, olhe para o outro. Digamos que você vê uma pessoa sentada sozinha num bar movimentado e alegre, numa mesa de canto, tomando uma cerveja e olhando ao léu. O que ela está fazendo? Qual seu estado de ânimo? O que você pensa dela nesta situação?


E se esta pessoa fosse você? O que você diria ser a situação?


A pessoa pode estar apreciando a música e observando pessoas. Pode estar concentrada numa cerveja especial para saborear, talvez uma que eu nunca tenha tomado. Pode estar simplesmente esperando alguém. Pode estar na expectativa de ser abordado. Pode estar mesmo depressiva. Como saber?


O interessante é que se você a abordar, achando que está indo ao seu socorro, pode acabar atrapalhando um experiência de savoring (qualquer hora faço um texto falando disso).


Protágoras (481 a 411 a.C.) já reparara que as pessoas julgam as outras com base em si mesmas. Para uns seria inadmissível que num ambiente alegre de um bar alguém pudesse ficar sozinho e em silêncio. Outros admirariam tal capacidade. Mas cada um interpretaria com base em suas próprias ideias, já que o fato não diz muito por si só. Como julgar aquele comportamento?


Tive um chefe que adorava planilhas enormes, cheias de dados, e ele as usava com habilidade. Nunca consegui usá-las com a naturalidade dele. Para mim eram elefantes brancos. Mas eu as alimentava para que ele tivesse as informações que precisava. E fazia resumos com dados mais gerais para meu uso próprio. Cheguei a tentar convencê-lo de que eram desnecessárias aquelas informações todas, que até atrapalhavam mais que ajudavam. Ele tentava me convencer do contrário. Achávamos engraçada e interessante aquela divergência, pois ambos entregávamos os resultados necessários satisfatoriamente. Foi uma adaptação, no mínimo, incômoda, acredito que tanto para mim quanto para ele. Conviver com algo que foge à nossa essência não pode ser mesmo confortável. Mas não é impossível.


Saber entender essas diferenças e construir essa flexibilidade é fundamental para desenvolver relações positivas. Podemos sofrer até aprender com elas, ou podemos compreender melhor esses traços essenciais que caracterizam as pessoas estudando-os (mesmo superficialmente).


Quais são esses traços? Que nomes têm? O que os caracteriza? Como identificá-los?


A proposta não é, claro, que nos tornemos todos psicólogos da personalidade. Ao entender os nossos próprios traços, acabamos por criar boa compreensão também dos seus opostos. Ao procurar o que temos em nós de essencial, acabamos descobrindo o que não temos, mas que outros têm.


Aprendemos também a identificar o que temos em comum com outras pessoas. E se soubermos o que é essencial e valoroso para nós, podemos prever onde ocorrerão divergências, antes que elas virem problemas. Repare o quanto isso pode amenizar as relações em quaisquer contextos.


Podemos ainda, entender que certas pessoas têm naturalmente habilidades para certas situações e nós, para outras. Isso nos permite reunir um time mais capaz. Não se faz um bom time de futebol apenas com centroavantes ou goleiros. Mas é preciso saber a característica de cada jogador. As diferenças essenciais podem ser encaradas como problemas a eliminar ou oportunidades de ganhar o jogo. Mais uma vez, depende de como cada um vê a situação. Não vou aqui escrever sobre as qualidades da diversidade, mas seria um tópico pertinente.


O mesmo ocorre com as personalidades. O que são potenciais problemas de relacionamento, se bem administrados, podem virar grandes oportunidades e vantagens competitivas. Mas, já diz a máxima: não se gerencia o que não se mede (ou não se conhece). Como você poderia pensar em obter seu melhor desempenho sem se conhecer? Lembre-se do que citei acima, há características nossas das quais não temos consciência.


E, ainda, como obter isso de uma equipe sem conhecer a todos? E como conhecê-los?


Como dito, conhecendo o que você é em essência, aprender ao mesmo tempo a reconhecer o que não é. Mas os outros são. Então você aprende a reconhecer os traços dos outros. Esse conhecimento em uma equipe é poderoso para potencializar resultados. Obter desempenho fazendo com que as pessoas sejam o que já são naturalmente.



Então, o autoconhecimento é um pilar fundamental do desempenho individual e coletivo. Portanto, antes de pensar que fulano é isso ou aquilo, descubra o que você mesmo é. Você pode acabar descobrindo que o que você julga defeito é a maior qualidade do outro. E ficaria surpreso em descobrir que você talvez tenha em sua sombra, exatamente o traço do outro que lhe incomoda tanto.


O outro é um espelho da nossa essência se soubermos olhar para ele. E nós também somos o espelho do mundo. Mas olhar para dentro é ainda mais difícil. Desafie-se nessa descoberta de desenvolvimento pessoal.



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